Desde que a TV apareceu no cotidiano das pessoas ela é vista como um meio que transmite modelos e ideias à população. O grande problema de tudo é que a TV assumiu um papel de "refletor de mensagens" de uma hegemonia que trabalha fortemente para manter o
status quo na sociedade, na política e na economia.
No começo, quando novelas ou séries (escritas por homens) traziam um personagem feminino em seu núcleo, ele se limitava à representar uma dona de casa perfeita, que era subordinada ao marido. Ela sempre fazia o que devia ser feito sem questionar as ordens, até parecia uma máquina.
Com o passar dos anos o público feminino ganhou voz e se mostrou incomodado com esse perfil tão subalterno às ordens. Para abafar esse incomodo a TV reconfigurou a dona de casa, mostrando que as mulheres também podiam trabalhar e assim trazer mais renda para casa. Nesse ponto a TV viu que com mais renda nas famílias, mais aumentaria o consumo e para isso eles, por meio de publicidade, redirecionavam o dinheiro que essas mulheres recebiam para a compra de lavadoras, geladeiras, torradeiras, cafeteiras e microondas, tecnologias novas que iriam ajudar essa mulher na execução de novas tarefas.
A TV ia tentando se acostumar com esse novo modelo feminino, enquanto lucrava com geladeiras e lavadoras, mas, de repente, eles tiveram que se adaptar novamente à um novo perfil que tomava se espalhava cada vez mais pela sociedade. A mulher divorciada ganhava cada vez mais números, possivelmente de mulheres cansadas das traições e ordens do marido, e chegava a hora de mais uma vez esse perfil ser transportado para a TV visando conquistar público e gerar consumo.
"Uma mulher divorciada, como poderíamos trazer essa mulher para a TV? Um perfil desses ia derrubar totalmente os ideais machistas que afirmamos a anos". Daí surge uma nova figura, a mulher divorciada em busca do novo amor, um perfil tão lucrativo quanto o anterior, pois nesse perfil trazemos uma mulher cheia de carência e insegurança (e dependência masculina),
enfrentando um mundo novo e ainda traz consigo os filhos do casamento anterior. Esse perfil trouxe o boom de rede sociais e sites de encontros, trouxe boom de revistas femininas e horóscopo, trouxe os livros de auto-ajuda ao ranking de best-sellers e ainda lotou algumas academias, uma movimentação de mercado muito grande para os dias de hoje.
O que se pode tirar de tantos perfis configurados e reconfigurados com o passar dos anos? A hegemonia sempre foi e sempre será machista. Eles trazem dentro de suas novela e shows, exemplos de dependência feminina que agregados à uma boa narrativa e rostinhos bonitos cegam o público diante dos reais objetivos de impor o machismo na nossa sociedade.
O Final Feliz
Tudo é tão perfeito quanto o começo de tudo, porque você tem um homem ao seu lado. Esse sentimento de final feliz ao lado de um parceiro foi despertado ainda criança, quando você assistia aquele filme da princesa que era salva pelo príncipe.
Hoje o roteiro mudou, hoje a princesa também luta, bate com bandido e dá pirueta, mas com seu amado ao lado. Essa princesas são tão frágeis quanto às antecessoras, são tão frustradas e cheias de inseguranças quanto às outras, pois o fato de lutarem junto com seus parceiros não anula sua dependência, afinal o herói apareceu no começo da história, não em sua continuidade.
A Mensagem da TV e do Cinema
"Uma mulher amargurada e sozinha em busca da felicidade" essa é a sinopse de novela de toda mocinha da TV, no final essa mocinha encontra a felicidade, ao lado de um héroi que supera tudo e todos, de interesse por uma herança a uma vilã que também ama o héroi. Pela mocinha ninguém se interessa, mocinha essa que pode ter seu próprio negócio, pode ter seus filhos do antigo casamento, pode ter toda uma vida em suas costas, mas essa vida só faz sentido quando encontra seu héroi.
O mais interessante disso tudo é perceber que as mulheres realmente independentes e inteligentes são colocadas dentro de uma trama como vilãs, mulheres promiscuas, coadjuvantes com poucas falas ou de baixo auto-estima. Além disso, a traição feminina sempre pesa mais que a masculina. Quantos mocinhos são perdoados por traírem a mocinha? Quantas mocinhas são apedrejadas por traírem os mocinhos?
Não é só na novela que isso acontece. E o buraco é bem mais fundo. Em programas esportivos vemos, freqüentemente, a indiferença com que as equipes femininas são tratadas e como elas só conseguem mídia quando despertam desejo nos homens. E ainda temos "as comentaristas" que são colocadas como inteligentes já que são mulheres e entendem de esportes, ou seja, por elas serem mulheres sua inteligência é medida pelo que ela entende de impedimento, falta e linha de passe.
E a sociedade?
Dentro dessa situação nós olhamos para a sociedade e o que vemos? Mulheres se sujeitando à cirurgias estéticas ou para satisfazer seu parceiro, ou para satisfazer uma sociedade machista que a cobra seios grandes, ou ainda para apanhar um parceiro e não acabar sozinha, porque ela não pode acabar sozinha no mundo.
Ainda vemos homens tratando suas mulheres como se elas fossem sua propriedade e o pior, essas mulheres se comportando como uma propriedade e, principalmente, crianças sendo criadas nesse ambiente como se tudo fosse muito normal.
E isso não é um retrocesso, é uma continuidade, só seria retrocesso se houvesse antes um avanço.
E nesse quadro só nos resta torce que em campos como a internet, uma mensagem oposta à da mensagem hegemônica televisiva seja ouvida pelas gerações futuras.